Nesta madrugada de sábado, um amigo dizia-me que, estamos a viver numa época pós-moderna onde as pessoas tendem a especializar-se numa só área do saber.
Na consciência de que o termo pós-moderno é controverso no seu significado e pertinência, afirmo também que é um termo de uso corrente. Partindo desta tomada de consciência e tendo como enfoque a afirmação do primeiro parágrafo, acredito que a mesma não é correcta.
Numa atitude de total liberdade de discurso, direi que o pós-modernismo é uma espécie de renascimento onde, para além do ecletismo, reina uma apropriação/recriação do que já existe. É claro que faço esta afirmação e respectivas caracterizações, porque me agrada pensar desta forma. Pensar no indivíduo não como um “especialista”, mas como um “amador” capaz de abordar várias áreas do saber de uma forma eficaz.
Que não se caia em extremismos e se pense que uma forma de estar perante o mundo deve substituir a outra e esta é talvez mais uma das características do pós-modernismo, aceitar simultaneamente a afirmação e a sua negação como premissas de uma mesma conclusão. Ambas as posições são necessárias ao desenvolvimento da humanidade.
Gosto da ideia de “amador” e sinto que me enquadro neste perfil. É como se fosse um homem do renascimento. Este “amador”, é aquele que explora um assunto o tempo e a profundidade necessários para resolver ou responder a uma questão. Não tem pois, a pretensão de se tornar um especialista na matéria.
Umberto Eco no seu livro “Como se faz uma tese em ciências humanas” diz que, se estamos a estudar um autor ou assunto cuja bibliografia se apresenta sobretudo numa língua estrangeira devemos aprendê-la, lendo na língua original os livros necessários à investigação. Desse modo, podemos não aprender a falar a língua, mas vamos aprender a lê-la ou seja não somos especialistas nessa língua, mas somos “amadores”.
Para terminar este meu texto resta-me dizer que, acredito na inteligência colectiva como a descreve Pierre Lévi*, acredito na colaboração e na partilha de conhecimento. Acredito que a humanidade, deste modo, pode evoluir de uma forma mais rápida e eficaz.
* Inteligência colectiva - O conceito surge a partir dos debates promovidos por Pierre Lévy sobre as tecnologias da inteligência.
“O que é a inteligência colectiva? É uma inteligência globalmente distribuída, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que conduz a uma mobilização efectiva das competências. Acrescentemos à nossa definição este acompanhamento indispensável: o fundamento e o fim da inteligência colectiva é o reconhecimento e o enriquecimento mútuo das pessoas, e não o culto de comunidades fetichizadas ou hipostasiadas. Uma inteligência globalmente distribuída: é este o nosso axioma de partida. Ninguém sabe tudo, toda a gente sabe alguma coisa, todo o saber reside na humanidade.”
Lévy, Pierre - A inteligência colectiva: para uma antropologia do ciberespaço. Lisboa: Instituto Piaget, ISBN 972-8407-02-5
Hoje (ontem) fui ver os Mão Morta à Serra do Pilar.
Continuo a gostar de Mão Morta como da primeira vez que os vi e ouvi, no longínquo Novembro de 1985. Tinha ouvido distraidamente falar deles e do seu primeiro concerto dado no Orfeão da Foz. Amigos diziam-me então terem visto os Mão Morta e gostado, mas, tal como escrevi, não prestei atenção.
Quando vinha do concerto passei por uma jovem que cheirava a cosméticos ou perfume ou… nem sei, mas uma coisa eu penso saber.
Desde muito jovem sempre detestei o cheiro de perfume e porquê?
Criado numa família de estatuto económico médio baixo, sempre me habituei (ou não) a ver família, amigos e conhecidos, todos aperaltados aos Domingos.
Ah, como odiava os Domingos. Para mim não havia razão para vestir uma roupa tinhosa que não podia sujar. A verdade é que não demorava muito a fazê-lo (a sujar a roupa!).
E camisas? Ah, como odeio camisas. São frágeis e fáceis de rasgar, de estragar, de encorrilhar, eu sei lá que mais. Na verdade não tive que usá-las muitas vezes, creio que não rendia e talvez fosse num ou noutro casamento que mas obrigaram a usar. Não deve ter chegado a uma mão cheia de vezes, mas uma que fosse já é muito.
Adorava t-shirts e calças de ganga. Tudo prático e resistente. Podia jogar a bola e cair ao chão, andar de carrinho de rolamentos, trepar árvores, rebolar no jardim ou na areia da praia (não muito longe), enfim, ser uma criança saudável e depois adolescente.
Ah, mas Domingos é que eu não suportava. Os aperaltanços e cheiros tenebrosos a perfumes de pior ou melhor qualidade, mas sempre colocados de uma forma exagerada, é que eu não suportava. Lembro-me, ainda estudante, evitar uma amiga para não ter que a beijar, tal era a quantidade de base que ela punha na cara e de perfume no corpo (?). Quando não conseguia evitá-la, ficava enjoado o resto do dia e sempre a fungar como se me estivessem a entrar animais pelo nariz.
A noite foi longa. Regresso a casa e a manhã já rompeu o horizonte. Nos ouvidos trago ainda a música e os ritmos com que fui brindado. Na cabeça apenas uma frase... - Dá-me o teu perfume e eu digo-te quem mataste.
Pronto M., mesmo ausente convenceste-me a revisitar os meus textos e, em consequência, deixar partir este aqui.
Como é que podemos “fazer filmes” a partir do que não conhecemos?
Não!
Na realidade parece-nos somente possível “fazer filmes” a partir do que não conhecemos. O que conhecemos parece-nos demasiado familiar para dar um bom “filme”. É com o que não tem, que a mente humana se regala… correcção: a mente humana ilude-se no regalo do que não tem. Quando está perdida é no aconchego do familiar que se reencontra. Saber apreciar o que temos, é mais difícil do que saber apreciar o que não temos. É por esta razão que aparecem a cobiça e a inveja.
Devemos “fazer filmes” a cores ou a preto e branco? A preto e branco dá um ar mais artístico, dizem! Mas um filme a cores torna as coisas mais fáceis de compreender. Afinal, em termos cromáticos, um filme a cores está mais próximo da realidade, logo está mais perto do familiar.
Quando cerro os olhos tenho visões e penso sobre o que serão. Fico prostrado com tanta beleza. Ouço vozes sussurrando aos meus ouvidos. Tarde demais, a fada chegou e nada fica como antes.
O meu cérebro retoca-se cheio de frases soltas, vindas não sabemos de onde. Talvez as tenha apanhado no éter como uma galena a apanhar as ondas hertzianas. As frases não fazem sentido e nem mesmo o meu cérebro as compreende como uma narrativa lógica.
Talvez se as juntasse a todas, obtivesse um belo “cut”.
Mas não!
Prefiro deixá-las onde elas pertencem, ao meu cérebro (…ou ao éter?).
Nada de novo, se alguém não tem memória. Alguém a quem roubaram a memória!... Começa a despertar o interesse por algo que pode ser anormal.
As pessoas gostam de anormalidades e se possuírem alguma perversão pelo meio que desperte a libido, ainda maior é o gosto. Não sei se este homem terá algo de perverso para além do roubo de que foi vítima, no entanto não deixarei de relatar o seu estranho caso.
Acordou quando ainda lhe retiravam os ferros da garganta. Estava semiconsciente e sem capacidade de agir ou mesmo manifestar-se. Apenas conseguia ver, através dos seus olhos semicerrados, os ferros ensanguentados a sair da sua boca. Ele ainda pensou ser a continuação de um qualquer pesadelo que estava a ter, mas acabou por concluir estar a viver uma situação real.
Não sei como se poderá roubar a memória a alguém através da garganta, mas foi o que aconteceu com este homem. Estranho é ser um roubo selectivo. Não lhe roubaram toda a sua memória.
O homem recuperou das chagas interiores feitas na sua garganta e não notou de imediato o que lhe estava a acontecer. Com o tempo, começou a constatar que tinha uma estranha falta de memória. Com muito esforço conseguia ultrapassá-la, mas provocava-lhe algum desconforto saber que, não retinha de imediato as pessoas na sua memória. Tinha a necessidade de estar com elas várias vezes, até as guardar na memória. Isso causava-lhe alguns constrangimentos sociais porque, nas primeiras vezes que cruzava com as pessoas, não as cumprimentava. Ele olhava para as pessoas e ficava com a estranha sensação de as conhecer, mas não tinha a certeza. Pior ainda, não sabia se reconhecia como amigo ou inimigo.
Um dia, o homem descobriu que reconhecia as pessoas pelos olhos. Não sabia dizer de onde as conhecia, nem quando as conheceu, mas sabia que as conhecia, bem como se eram amigos ou não. Para além disso, ele conseguia ver nos olhos dos outros o carácter dos mesmos.
Esta última capacidade, mostrou-se bastante comprometedora e do mesmo modo, uma espécie de maldição. Vejamos! Quem quer dialogar com alguém que o está a tentar enganar?
O homem não conseguia deixar de olhar nos olhos todos os que com ele cruzavam e isso levava a que cada dia que passava ele tivesse menos amigos. Descobriu que muitos dos amigos não o eram e ele começou a desejar não ter aquela maldita capacidade.
Tenho aprendido que a maior parte das pessoas prefere perder a sua dignidade ao seu "status" ou bens materiais. Hoje, como ontem, é entre os jovens, e a sua irreverência, que eu vou encontrando mais pessoas empenhadas em manter a sua dignidade.
Por vezes podem-se confundir as coisas e pensar-se que a perda de dignidade é a vontade de viver. Não!
O esquecimento de valores passados, não significa que não existam valores, apenas significa que os valores de ontem não são os de hoje. Isto ajuda a que muita gente pense que a dignidade está perdida, mas no entanto valores e dignidade são objectos diferentes.
A vontade de viver ultrapassa qualquer valor passado, criando novos valores.
Dignidade é, para muitos, justiça, honradez e honestidade, mas prefiro vê-la como uma qualidade do Homem que é autónomo e único. Aquele que usa de plena liberdade sobre o seu pensamento, a sua voz e o seu corpo.
Sonhei que queria comprar um apartamento nos reconstruídos prédios do célebre café Luso e da ex-sede de campanha do General Humberto Delgado.
Claro que tinha o problema de não possuir o dinheiro suficiente para comprar tão caro apartamento. Resolvi então pedir dinheiro ao sr. primeiro ministro José Sócrates. Fui ter com ele e disse-lhe que era banqueiro, de um banco cujo nome terei inventado no momento, e que necessitava de um pequeno e ligeiríssimo empréstimo a fundo perdido.
O sr. primeiro ministro respondeu-me então: - Mas... qual é o seu banco? Creio que não conheço.
Eu, estupefacto, respondi-lhe: - Mas, ó sr. engenheiro, não conhece o meu banco? Olhe que nem parece seu. Uma pessoa culta como o senhor, bem formada e letrada. Qual é o seu curso, mesmo?
Ele olhou para mim e disse: - Quanto é que pretende?
Este tinha um problema nas mãos. Um problema muito simples, mas bastante complexo. Ele não sabia o que devia fazer às mãos. Ficava para ali, com elas assim, desesperado, sem saber o que lhes fazer. Por vezes… mas não, não adiantava nada, as mãos continuavam ali, assim. Também tentava e tal, mas o problema persistia e até o irritava mais. Todos os seus esforços eram em vão. Era um homem desesperado.
Um dia, desatarraxou as mãos e meteu-as nos bolsos. Ficou felicíssimo.
Estava ali, assim… e de repente parou de respirar. Não porque lhe desse maleita maior; não porque prendesse a respiração; não porque a isso o obrigaram; apenas porque não sabia como o fazer. O homem pensou: que se passa? Parei de respirar? Mas… como se faz para respirar?
Na verdade o homem não sentia nada. O seu peito simplesmente deixou de mexer e a sua pele ficou… O homem não sentia dor e apenas se sentia cada vez mais dentro de si próprio. Nesse profundo âmago, encontrou-se a si próprio.
- Porquê? Porque é que só na hora da minha extinção é que me encontro?
Hoje, fui fazer uma ressonância magnética. Foi a primeira vez que fiz tal exame. Enquanto decorria o exame, muitos pensamentos me ocorreram, não sendo propriamente os mais comuns, penso eu, em situações deste tipo.
Lembrei-me da Série “House”, onde os exames similares nunca eram tão ruidosos. Pensei, quantas mais ressonâncias irei fazer até ao final dos meus 150 anos de vida. Será que o bombardeamento magnético a que estou a ser sujeito me irá transformar num super herói, daqueles com super poderes? Não me parece, mas fico contente em descobrir… em reconfirmar que, ainda existe dentro de mim uma criança e que não fui empedernido com as agruras da vida.
Mas é o ruído que me continua a fazer gerar pensamentos e, de entre estes, aquele que mais se destaca e se torna recorrente ao longo do exame, é a ligeira frustração por não ter trazido comigo o meu pequeno gravador de áudio. Desse modo, poderia gravar os sons e garanto que se tratava de puro “noise”, que apreciei do princípio ao fim. Creio que vou pegar no dito aparelho de áudio e andar com ele o resto do dia.
Estar assim embrulhado em sentimentos, de sorriso no rosto e cansaço na mente. Espreitar por entre a ruína e sorrir pela madrugada. Esperar pelo desejo e conquistar a esperança.
Ah, mas se soubesses o que é!
Não saber nada e nada esperar. Ter o cuidado de não perturbar o silêncio e deixar a água do lago repousar. Olhar! Ver e amar. Pensar e ficar feliz por pensar. Estar vivo e saborear.
Se soubesses o que é partilhar!
Ser uno e apaixonado. Correr descalço sobre a água do mar. Comer gelados, gritar, brincar, aproveitar o sol e de novo o mar. Ser criança, ingénuo e acreditar. Hum! Que bom é ser.
Escrevo porque não quero dizer a razão de escrever, escrevo porque as palavras me afluem aos dedos, escrevo porque não tenho razão para o fazer.
Escrevo porque não existe sentimento, escrevo porque é o que acontece, escrevo porque não é isso que penso.
Escrevo porque não existe o que escrevo, escrevo porque me lembro e escrevo, escrevo porque não sei o que escrevo.
Escrevo, escrevo, escrevo e afinal não escrevo, apenas deixo os meus dedos passearem sobre o teclado e lutarem com as palavras para se formarem frases sem sentido que apenas dizem o que não dizem.
São enganos, são metáforas, são pregos na calçada onde caminho descalço.
São alucinações, são pesadelos, são gomas que me colam o peito ao céu.
São verdades, são vocábulos, são sentenças que perdi a jogar com o vento.
É a queda dos dedos sobre o tecladopof kgjq0020+psaldpf bvuqbwfjnwqfb
Eu era para ser dois, mas acabei por ser vários num só.
Quando parti para a nascença estava decidido que iria ser dois, mas as coisas nem sempre correm conforme o planeamento do destino. Ser dois significava perder um de nós. Por outro lado, ser um para dois era mais enriquecedor. O que não sabíamos era que ao tomarmos a decisão de ser dois num só, estávamos a abrir o caminho para nos tornarmos vários num só.
Este facto de ser vários, ajuda-me a entender melhor os…
Os meus dedos congelaram e os meus olhos, mortos de cansaço, baniram-se da minha face. Parei e o mundo inteiro parou. Ficámos todos na expectativa. Para que mundos tinha eu agora viajado? É uma resposta difícil de dar, mas entre dor e prazer, detive-me. O melhor caminho, é aquele que nos deixa vislumbrar ambas as opções para, entre elas, construirmos o nosso próprio carreiro. Cruzamos com a formiga que segue em sentido contrário e percebemos que foi enganada. Não é o sentido contrário que ela deve tomar, mas sim criar e seguir um novo carreiro, o seu carreiro.
Pouso os meus dedos um a um sobre o veludo negro da caixa, fecho-a e guardo-a. Deixo o texto repousar e vou para junto dos meus olhos. Felizes, reencontramo-nos e partimos unidos para um merecido descanso.
Estou na beira da janela, junto ao tecto e observo os pés das pessoas que passam na rua. Na verdade, não consigo ver outra coisa da janela senão os pés das pessoas que passam. Agarro-me às grades que me separam da rua e imagino como será caminhar em liberdade. E lá fora, as pessoas continuam a caminhar.
Vejo-me a cair num poço branco sem fim e fico feliz por não ter fundo. Será, por assim dizer, uma queda para toda a eternidade ou por outras palavras, o caminho para a imortalidade. Não são todos os que concorrem para a perenidade e apenas alguns encontrarão o caminho. No meu caso, o caminho é um poço cheio de luz branca e sem fundo.
Olho em volta e o que vejo? Nada!
Nada é um excelente ponto de partida e a minha felicidade aumenta. Tenho todo o espaço do mundo sem nada. Tenho todo o espaço do mundo para construir. Construir a partir do nada não é fácil, requer apenas muita imaginação. Tento partilhar este espaço com quem se aproxima, mas todos me acham sonhador, ingénuo e absurdo. Falta-lhes imaginação para conseguirem conceber algo a partir do imenso nada.
Uma tela branca está cheia de luz. É preciso, primeiro, reduzi-la a nada e isso significa retirar-lhe toda a luz. Reduzi-la ao negro e a todas as possibilidades que o mesmo nos dá. Só depois temos ponto de partida.
Porque vestes de preto? – perguntam-me. Porque sou o ponto de partida, respondo eu. Não quero ser julgado pelo que visto, mas é por aí que acabo por ser condenado. Falta de imaginação das pessoas, que não conseguem pensar para além do estereotipado. Deviam partir de mim e não do que trago vestido. Mas compreendo, … é mais fácil!
Alguém repara que tenho um buraco negro na orelha e que ele suga tudo que dele se aproxima. Não tenho culpa, mas agora compreendo porque é que existe nada.