Estar assim embrulhado em sentimentos, de sorriso no rosto e cansaço na mente. Espreitar por entre a ruína e sorrir pela madrugada. Esperar pelo desejo e conquistar a esperança.
Ah, mas se soubesses o que é!
Não saber nada e nada esperar. Ter o cuidado de não perturbar o silêncio e deixar a água do lago repousar. Olhar! Ver e amar. Pensar e ficar feliz por pensar. Estar vivo e saborear.
Se soubesses o que é partilhar!
Ser uno e apaixonado. Correr descalço sobre a água do mar. Comer gelados, gritar, brincar, aproveitar o sol e de novo o mar. Ser criança, ingénuo e acreditar. Hum! Que bom é ser.
Escrevo porque não quero dizer a razão de escrever, escrevo porque as palavras me afluem aos dedos, escrevo porque não tenho razão para o fazer.
Escrevo porque não existe sentimento, escrevo porque é o que acontece, escrevo porque não é isso que penso.
Escrevo porque não existe o que escrevo, escrevo porque me lembro e escrevo, escrevo porque não sei o que escrevo.
Escrevo, escrevo, escrevo e afinal não escrevo, apenas deixo os meus dedos passearem sobre o teclado e lutarem com as palavras para se formarem frases sem sentido que apenas dizem o que não dizem.
São enganos, são metáforas, são pregos na calçada onde caminho descalço.
São alucinações, são pesadelos, são gomas que me colam o peito ao céu.
São verdades, são vocábulos, são sentenças que perdi a jogar com o vento.
É a queda dos dedos sobre o tecladopof kgjq0020+psaldpf bvuqbwfjnwqfb
Soltem-me os anjos como cães raivosos, porque de fantasias eu não tenho medo. As musas, como raivosas meretrizes, atacam tudo que ande, gatinhe ou rasteje. Do lado de lá da rua os alucinados flamejam e com eles serpentes de ferro e aço combatem, os jogos de palavras, com amor. Os automatismos na escrita abrem percepções.
"Sempre pensei que Novembro fosse um mês grande! Ele, sentado, ouvia música e o gato namorava-o enquanto ia dormindo sobre o braço dele. De repente, o gato desperta e olha para a planta que repousa sobre o vaso. Algo tinha acontecido! Talvez a planta que mexe se tivesse mexido. Ele olhou para o gato, olhou para a planta e disse: - Vai lá falar com ela. E o gato foi."
"O gato e a planta, como de costume, falavam de coisas sérias. Questionavam-se se a pintura teria acabado ou não. Um dizia que sim, que se não há inovação não há pintura e o pintar por pintar não é pintura. Dizia que a pintura tende a satisfazer um desejo pessoal, o desejo de se opor à sociedade, de se sentir único. Mas isto não é inovador, desde que se destruiu o passado, não existe inovação (futuro?). O outro, por seu lado, acredita que a pintura está temporariamente adormecida e que a inovação não é a razão de ser da pintura. Quanto ao desejo do artista se opor à sociedade, aparece, não através da crítica ou da oposição, mas sim da indiferença ou seja, alienando-se da sociedade. Para este, a divisão do tempo em passado, presente e futuro, deixou de existir, hoje só existe o presente que assimilou já o passado e o futuro. Eu não sei se deva acreditar no Galileu, mas que a terra é redonda, ai lá isso é."
Estava a fazer umas arrumações e encontrei um dos meus bloquinhos,... um dos antiguinhos. Pus-me a folheá-lo e fiquei com vontade de transcrever algumas das coisas que escrevi e que por lá estão.
"Aprendo mais ao reconhecer a minha ignorância do que..."
"Que somos nós neste mundo? Nada mais do que pedaços de carne atirada aos cães!"
"É tão bom estar-se vivo! De manhã levantamo-nos e vestimo-nos, à noite despimo-nos e deitamo-nos, nascemos estúpidos e morremos estúpidos."
"Cortei os fios que me prendiam os olhos à testa e adormeci."